DIOCESE EM FOCO
Pais: educadores da fé

Adilson Jose Francisco - 11-08-17 fotoEducar não é tarefa fácil. Educar para a fé numa realidade marcada por diversos fatores que negam ou distorcem o sentido mais originário da fé, no caso da fé cristã, amplia os desafios desta tarefa. As aceleradas transformações de nossa época incidem diretamente sobre as relações interpessoais e por consequência, sobre como pais e filhos aprendem ou são desafiados a aprender e ensinar. Sim, ensinar, pois essa é tarefa primária dos pais, antes que qualquer outra instância venha a fazê-lo. E como educar – bem mais que ensinar – num contexto em que a internet, o celular, a TV, dentre outros meios, tornam-se bem mais presentes na vida dos filhos do que os pais? Como educar para fé, numa realidade em que o mundo do trabalho ou a falta dele, modifica a vida dentro de casa?
Ao privilegiar o individualismo, o consumismo e a fluidez dos vínculos, nossa sociedade estimulou um jeito de pensar a educação dos filhos desconectada da educação para fé, ou reduziu tal educação a tradição de ir à igreja. Ir a igreja é uma consequência e um dos aspectos deste processo infinito e sem respostas mágicas. Diante das incertezas e dificuldades a tentação é apelarmos para chavões saudosistas: “no meu tempo não tinha estas liberdades e todo mundo ia a igreja”, ou “todos tinham fé pois íamos a catequese”.
É de Jesus que temos um antídoto diante destas saídas ingênuas: “Não se põem vinho novo em odres velhos”. Os desafios de nosso tempo exigem de nós pais, novas formas de educar. Nossos tempos trazem conquistas importantes, frutos de muitas lutas e superação de entraves na transmissão da fé que não precisam ser repetidos, mas como todo processo, comporta também, limites e equívocos. Tais limites não podem levar-nos, nós os pais, a cair nas tentações de colocar o bom vinho em métodos ou receitas que já não respondem a desafios da realidade atual. Dizer isso não significa minimizar o papel e a autoridade de pais sobre o processo de educação dos filhos. Ser pai é um dom divino e tarefa humana inalienável, da qual somos sempre aprendizes.
Na exortação apostólica pós-sinodal A alegria do amor e em alguns pronunciamentos dirigidos às famílias, o Papa Francisco, tem nos dado algumas orientações que iluminam nosso aprendizado de educadores da fé. Primeiramente nos lembra Francisco que os filhos não são fardos, como algo que vem de fora a acrescentar-se ao amor dos pais, mas surge no âmago do amor mútuo, como fruto e realização do amor dos pais. Por isso, uma das primeiras tarefas de pais-aprendizes é apresentar as razões profundas do viver – a vida como dom que não pode ser fechada em si mesmo – através do exemplo e do cultivo da vida de fé na “igreja doméstica” – a casa que abriga no seu interior a presença de Deus.
A família, reconhece o Papa, não é a única instância educativa, mas é a que perdura durante toda vida dos filhos como modelo, em tudo o que ela tem de positivo e daquilo que precisa e pode ser melhorado. A escola, por exemplo, não substitui os pais mas serve de complemento, recorda o Papa. Como pai-professor é lastimável perceber o quanto da tarefa de educar é relegada à escola.
Regras básicas de convívio e de respeito são relativizadas ou mesmo rejeitadas, basta ver os índices de violência no interior das escolas.  Diversas são as causas deste processo, dentre elas a desumana condição socioeconômica que submetem famílias inteiras a condição de semiescravidão no mundo do trabalho que forçam pais a ausentarem-se da vida cotidiana dos filhos.
Atento a isso o Papa pede da igreja e de seus pais-educadores – os sacerdotes –  apoio e acompanhamento não teórico dogmático, mas como quem conhece e tem a coragem de entrar dentro das realidades humanas que merecem amor e acolhida da mãe igreja.
Mas, e a nós pais o que cabe disso? Retomo duas pistas dadas por Francisco: educar para a fé cristã é levar por diante de nossos filhos os valores humanos em todas as realidades, e uma destas realidades é a transcendência. Hoje há a tendência a um neopositivismo, ou seja, a educar para as coisas que são visíveis, para o que é palpável, principalmente o que dá lucro. A realidade da vida é bem mais que isto. Para Francisco “a maior crise da educação, na perspectiva cristã, é este fechamento à transcendência. Somos fechados à transcendência. É preciso preparar os corações para que o Senhor se manifeste, mas na totalidade; ou seja, na totalidade da humanidade que tem também esta dimensão de transcendência. Educar humanamente, mas com horizontes abertos. Nenhum tipo de fechamento beneficia a educação”.
Não se trata de relativizar os valores, mas de buscar novas formas de transmití-los, começando por reconhecer o que de divino acontece também em nossas famílias: o perdão praticado, o abraço repetido a cada dia, a prece cotidiana, o cuidado com os idosos, o respeito, a acolhida aos que precisam, são formas de educar para a fé na fé. Na fé de quem acredita que o reino de Deus se esconde e se revela nas coisas pequenas, nas famílias quase sempre imperfeitas e marcadas pelas cicatrizes, mas impulsionadas pela graça restauradora. Graça que nos capacita para educar para fé na vida de fé.

(*) Adilson José Francisco é pai e professor

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