Dia dos pais

Hermelio Silva - poeta - escritor-01-08-15Eu olho o futuro pensando no passado e vivo o presente pressentindo o futuro. Coloco em meu colo o mimo recebido e ao mesmo tempo apalpo a fronte do meu pequeno rebento. Estou no meio, entre o passado e o futuro, presenciando uma dantesca cena, onde meu velho acena num gesto harmonioso de extremo carinho, que eu, um autômato transmito ao meu filho, tornando-me apenas um vetor daquela fagulha, daquele afeto, num sinal do bem-estar, do bem-querer.
Vivo, vívido e vivido. Pai, filho e neto. Três gerações num cômodo, no aconchego familiar. Sei o quanto passou o vô para chegarmos até aqui, e bem sei eu, o que passei para aqui estar. Caminhos difíceis, que o cansaço insistia a perseguir, sem provisões, previsões e muita provação. Tantas vezes foram as desistências desistidas, e lá vinham novos caminhos, ainda árduos, secos, longos, mas a fome de vencer era maior que a fome de fato. Rios de lágrimas misturadas à água do chuveiro foram por mim vertidas, para não serem notadas.
Um pai sisudo, que passa as noções do bom caráter, em ações, exemplos e sermões intermináveis advindos do meu próprio pai. Sou um presente do pai, e muitas vezes uma modesta mãe a segurar a mão do meu filho em amparos no seu caminhar, pois o seu avô também para mim o foi e ainda o é.
Aqui estamos, o filho-neto, o pai-avô e o filho-pai. Enchemos a nossa moradia do saber, da maturidade e do porvir. O fole acende a brasa da forja, e eu uso a matriz do meu pai para moldar o meu filho, reconhecendo as mudanças e diferenças que eu tive do meu pai, aceitando aquelas que meu filho terá de mim. Vá meu filho dizer ao mundo o que Shakespeare prega: “Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha”.

(*) Hermélio Silva é escritor e membro fundador da Academia Rondonopolitana de Letras, cadeira número 6

 

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