Levanta-te e anda, companheiro!

Ademar de Lima Carvalho - professor da UFMT - 03-02-06O primeiro pressuposto provocativo para o envolvimento no processo de reflexão passa pelo ato do assumir a vocação ontológica da liberdade. Essa reflexão se estrutura na tomada de consciência de que a cicatriz exposta da desigualdade social tem sua raiz histórica na desigualdade social. A desigualdade persiste devido a forte crença continuada nos princípios de injustiça, que na relação cotidiana se apresenta de forma tácita, dando sentido as convicções explícitas, por isso que tem uma parcela da população que tolera o cinismo que mistifica esse modelo social vigente.
O segundo pressuposto é compreender o ambiente social que modela as relações sociais no sistema capitalista, ventrículo do negócio, inclusivo da política – persiste precisamente na manipulação das possibilidades da massa ao acesso ao poder. Diante dessa realidade perversa que transforma tudo em mercadoria para  negociar  sem princípio de justiça e ética, também se estendeu ao imaginário social como preposto da negação de si. Desprotegida de sentido na e da vida, tem muita gente que passou a incorporar como caminho de vida a naturalização da perversidade da arte do disfarce alicerçada à máxima de levar vantagem em tudo sem o menor esforço.
A questão determinante é que o imaginário social se configurou no estágio da dissimulação, que, de tão corrompido, está dificultando no universo popular a possibilidade de se perceber que neste cenário de contradição, antagonismo social, há pessoas justas. Quando se fala de política se toma a parte pelo todo. Logo, a generalização é que todos são corruptos. Porém, o engraçado é que o indivíduo sempre coloca a mácula no outro, ele sempre é o perfeito, mesmo que a prática revele o jeitinho maroto.
Levanta-te e anda, companheiro! Porque o tempo exige mobilização para superar o modelo político que ceifa a esperança popular de envolver-se no processo de construção de outro mundo possível, povoado de humanos solidários. Compreendo que a primeira condição para o levante social passa pela tomada de consciência da situação a que estamos submetidos, bem como do que representa a luta na ágora da existência, para melhor entender as possibilidades que se tem na base – na  comunidade – para envolver-se na luta pela transformação sociopolítica.
Penso que, para fortificar a luta, faz-se necessário compreender a causa estruturante que conduz a massa ao estágio servil da colônia, porque a rebeldia sem ir ao âmago da questão não passa de uma militância desidratada de um projeto político libertador. Da mesma forma, o simples ato de ficar focado na causa aparente da situação política corruptiva favorece a proposta política conservadora eivada de um conteúdo moralista. É este conteúdo moralista  que desloca o discurso para o indivíduo desenraizado de todo o contexto histórico e  sociopolítico-econômico atual.
É evidente que, para mobilizar, é preciso problematizar permanentemente a representatividade política esvaziada de sentido para a classe trabalhadora a serviço da corrupção. Porém, para se qualificar a luta popular, faz-se necessário analisar que o jato que deságua no tanque da lavadeira tem uma fonte. O modelo social, político, erigido na desigualdade, é protagonista da ideia de que a “riqueza de poucos beneficia a todos nós”. Essa é a lógica que subjaz as reformas e o financiamento privado na política.
Diante dessa realidade indutora da indústria cultural de massa que produz a despolitização da nação algemada a doçura da ilusão do cinismo, que “bolsonifica” e “doralisa” a consciência de moralidade dos desesperançados, é importante entender, como assinala Bauman (2015), que “nosso mundo de começo do século XXI não é favorável a uma coexistência pacífica, e muito menos à solidariedade humana e à cooperação amigável”.  Como a política é uma construção humana, histórica e social, penso que a formação e mobilização popular como práxis política e pedagógica emancipadora poderá problematizar o fundamento do atual desmonte do estado democrático de direito.
O tempo presente requer que a palavra seja dita, que cada pessoa se manifeste como sujeito da práxis e cidadão político que tem o direito e dever de intervir na realidade que o cerca. Quando a multidão começa a falar, instaura-se o reinado do poder popular. Instaurar a mobilização popular é muito simples, depende do ato de você colocar-se à luta, porque a construção da democracia pressupõe a consciência de liberdade. A travessia está “dentro do horizonte de sentido e contexto histórico social que se dá à ação” que possibilita o fortalecimento do poder popular.
Porém, é preciso acreditar e compreender, como declara Freire, “que o sonho possível é coletivo” visto que “não há mudança sem sonho, como não há sonho sem esperança”, levanta te e anda, Companheiro! Espero que você esteja entendendo o diálogo, a razão do porque de tanta insistência midiática na despolitização que produz a descrença na política. A ideia é desconfigurar o empoderamento do povo no processo de condução da política que interessa a classe trabalhadora.
Enfim, não há saída mágica para a situação política em que todos nós estamos inseridos. A saída passa pela mediação teórica, formação, mobilização e engajamento popular na política por uma vida digna, para que o sujeito vá discernindo e superando o estágio de alienação imposto na perspectiva de despolitizar a massa. Frente à geração “desiludida, que se tranca na impossibilidade de perguntar-se”, que vive presa na certeza banal de “uma vida empobrecida sem curiosidade da mente”, reservo-me ao direito de duvidar, porque penso que a  libertação passa pela capacidade de “perguntar-se a si e à realidade”. Por isso, proclamo: levanta-te e anda! É no movimento da pergunta e da busca por respostas que você pode encontrar saída para a situação abúlica e obtusa que a política e a nação foram submetidas.
Levanta-te e anda! Porque a libertação está na força viva popular que se organiza e coloca na luta esperançosa que eclode na vitória da radicalidade da democracia popular de quem pensa a cidade educadora e inclusiva.

(*) Ademar de Lima Carvalho é professor doutor do campus local da UFMT

3 comentários

  1. Linda reflexão! A esperança é a condição para a luta.Entender e posicionar diante da sociedade, através de uma práxis revolucionaria, é preciso. Bravo! Parabéns professor Ademar.

  2. Parabéns Ademar pela bela reflexão.
    Levanta-te e anda!
    Urgente se faz

  3. Precisa-se, urgente!
    O povo precisa se posicionar, levantar e agir.

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