PRAÇA DOS CARREIROS
Rondonópolis: entre memórias e modernidade

Na década de 1980 a Praça dos Carreiros foi presenteada com um coreto

Na década de 1980 a Praça dos Carreiros foi presenteada com um coreto

Há sessenta e três anos, no dia 10 de dezembro nascia no seio de Mato Grosso o município de Rondonópolis. Aquele pequeno “Povoado do Rio vermelho” que passara pela condição de distrito de Santo Antônio do Leverger e depois, distrito de Poxoréu, alçava voos rumos ao progresso tão almejado pelo primeiro prefeito eleito, Sr. Daniel Martins de Moura.
Por acreditar que logo Rondonópolis se tornaria um município industrial, uma das primeiras providências do Sr. Daniel de Moura foi criar, no início de 1955, uma vila para abrigar os operários das fábricas que aqui seriam instaladas: a Vila Operária. As indústrias demoraram a chegar, mas a Vila Operária teve a nobre missão de acolher centenas de trabalhadores que foram expulsos de suas terras nas décadas de 1960 e 1970 devido à mecanização do campo.
Outro ponto de referência dessa época era a Praça dos Carreiros, local de descanso para os carreiros com seus carros de bois que se deslocavam dos pequenos sítios e das colônias para a cidade, a fim de comercializar seus produtos: arroz, feijão, milho, mandioca, verduras, etc. Tempo em que a produção era voltada para o consumo local; tempo de muita fartura e de muitos amigos. Amigos que tinham tempo para contar “causos”; trocar abraços; visitar os compadres e se reunir para rezar e comentar as notícias.
Na década de 1980 a Praça dos Carreiros foi presenteada com um coreto, em torno do qual as pessoas se reuniam para conversar e ouvir canções, discursos e apresentações de músicas, de peças teatrais e de poesias. Coreto que recorda um tempo em que a praça era ponto de encontro, de celebrações e de luta por melhorias.

Nos últimos meses, a Praça dos Carreiros ganhou outro presente: um majestoso carro de bois

Nos últimos meses, a Praça dos Carreiros ganhou outro presente: um majestoso carro de bois

O coreto da Praça dos Carreiros foi palco de muitos eventos importantes; de shows que possibilitaram a descoberta de novos cantores, apresentadores e músicos de modo geral; de programas como o “Prata da Casa” que reunia familiares e amigos para ouvir as mais diversas canções; enfim, o coreto guarda recordações de uma época áurea na história de Rondonópolis. Em outro período, o coreto passou a abrigar moradores de rua, mas não perdeu sua missão de reunir pessoas. Quantas mulheres e homens, também cidadãos rondonopolitanos, fizeram daquele espaço a sua casa. Talvez tenha sido a fase mais bela do coreto, pois possibilitou um pouco de dignidade àqueles que tudo perderam na vida. Como ressalta Sérgio Rouanet “a cidade habita os homens (e as mulheres) e também é habitada por eles”.
Nos últimos meses, a Praça dos Carreiros ganhou outro presente: um majestoso carro de bois; uma justa homenagem aos tantos carreiros que dedicaram suas vidas na construção do nosso município. Impossível falar da história de Rondonópolis sem destacar o árduo trabalho de mulheres e de homens que, entre suores e lágrimas, misturadas ao som do rangido das rodas do carro de boi, deixaram suas marcas nos estreitos caminhos entre “as roças” e o nascente município.
Como cidadã e moradora desta cidade que aprendi a amar, agradeço às pessoas que lutaram para que esse monumento do carro de bois fosse construído e, da mesma maneira, que foi possível compor o coreto da Praça Brasil com a reforma ali realizada, na década passada, registro o meu pedido aos governantes locais pela manutenção do coreto da Praça dos Carreiros para que a memória de nossa cidade possa ser perpetuada.
Como Durval Muniz analisa, “na memória fica o que significa; na história se ressignifica o que fica”. Que nós possamos ressignificar a história de nosso município também por meio “do que fica”, pois nessa sinfonia da vida urbana, os lugares de memória merecem ser preservados. Nessa mesma perspectiva, Jacques Le Goff realça: “por onde passamos e deixamos as nossas marcas, aí está a nossa história”. Que nós, mulheres e homens desse novo século, saibamos cuidar da memória de nosso município para que as gerações vindouras possam encontrar marcas que as ajudem a prosseguir a caminhada, com respeito aos que as antecederam. Parabéns Rondonópolis!

(*) Profª Laci Maria Araujo Alves é doutora em História e moradora de Rondonópolis.

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