ESPAÇO DIET
Educação em diabetes: um dever de todos (I/II)

Diabetes - 12-11-13

A educação em diabetes é um processo de aprendizagem que tem por objetivo orientar as pessoas com diabetes sobre como enfrentar os desafios e as eventuais dificuldades impostas pela doença. Para surtir seus efeitos, esse processo deve ser iniciado logo após o diagnóstico e deve ser mantido por toda a vida, passando por etapas sequenciais que incluem a exposição ao conhecimento num momento inicial. As etapas seguintes são de armazenamento e incorporação desses conhecimentos, o que deve proporcionar a necessária motivação do paciente no sentido de efetivamente implementar esses conhecimentos através da adesão às orientações recebidas da equipe de saúde. Os resultados clínicos positivos serão uma consequência lógica desse processo, que pode ser denominado de “cascata do conhecimento”.
Com frequência, o paciente mal informado e pouco motivado tende a encarar o diabetes como um castigo, principalmente quando o tratamento insulínico se faz necessário, com a sensação de que esse tratamento insulínico é a causa mais importante de suas percepções de vida bem pessimistas. Assim, ao invés de aceitar a insulina como uma opção salvadora para sua vida, acaba por satanizá-la como responsável direta por seus infortúnios. E fica a pergunta: alguém duvida de que um programa bem estruturado de educação motivacional e adequada intervenção farmacológica poderia aliviar grande parte desse desespero incontido?
A dimensão do mau controle do diabetes
Já em 2006, a International Diabetes Federation (IDF) manifestava sua grande preocupação decorrente da “enormidade da epidemia de diabetes”, estimando que o número de pessoas com diabetes atingiria a marca dos 380 milhões em todo o mundo dentro de 20 anos se nada fosse feito. Segundo a IDF, o diabetes vem se tornando a grande epidemia do século XXI, tendo afetado naquele ano 5,9% da população adulta mundial, com impacto particularmente desastroso sobre os países em desenvolvimento, os quais abrigavam nada menos que 80% da população afetada em 2006.
Mais ainda: a IDF considera o diabetes uma condição “mortal”, que responde por 3,8 milhões de mortes por ano (em 2006), cifra bastante similar, em magnitude, à epidemia de HIV/AIDS. “Se nada for feito para conter essa epidemia, a consequência será um impacto significativamente desastroso para o desenvolvimento econômico de muitos países”.
O grave problema do mau controle glicêmico é a universalidade, que atinge praticamente todos os países, com maior ou menor intensidade, sem distinção geográfica ou de nível sociocultural. Apesar do grande progresso ocorrido principalmente nas últimas duas décadas em relação ao lançamento de novos fármacos antidiabéticos, o objetivo final do bom controle do diabetes ainda está longe de ser atingido. Um estudo brasileiro recente avaliou o controle glicêmico de mais de 6.600 pacientes com diabetes tipo 1 (DM1) e diabetes tipo 2 (DM2) distribuídos em 12 centros de diabetes localizados em diferentes regiões do país. Esse estudo mostrou que apenas 10,4% das pessoas com DM1 e 26,8% dos indivíduos com DM2 apresentaram controle glicêmico adequado, representado por níveis de hemoglobina glicada (A1C) menores que 7%.
Outro achado importante desse estudo foi o percentual significativo de pacientes que tinham mau controle, com A1C e”9,0%, embora apresentassem autopercepção equivocada do estado de seu controle glicêmico: 41,3% dos pacientes com DM1, 43,0% dos pacientes com DM2 insulinizados e 19,6% dos pacientes com DM2 não insulinizados tinham a percepção errônea de que o controle do diabetes estava adequado. E mais: 30,0% dos pacientes com DM1, 37,4% dos pacientes com DM2 insulinizados e 15,8% dos pacientes com DM2 não insulinizados percebiam o controle glicêmico como “excelente”, quando, na verdade, apresentavam nível de A1C e”9,0%.
Diante desses dados altamente preocupantes, três conclusões parecem estar justificadas: 1) as estratégias atuais de controle do diabetes não estão surtindo os efeitos desejados; 2) novas abordagens mais eficazes precisam ser desenvolvidas com o objetivo de reverter esse quadro; e 3) estratégias educacionais mais efetivas e mais abrangentes precisam ser urgentemente desenvolvidas.

Dr. Augusto Pimazoni Netto, coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim – Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP.

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