Publicado em 18 de julho de 2010   |   Fonte: Ruy Ferreira

Avesso do avesso – local

noinda na esfera federal trago o debate para Rondonópolis. Vou deixar a humildade de lado e falar em primeira pessoa. Eu levantei a bandeira da autonomia para o CPR (Centro Pedagógico de Rondonópolis), hoje CUR – Campus Universitário de Rondonópolis, da UFMT, junto com outros professores e alunos no decorrer da campanha para eleger o reitor no início dos Anos 80. Luís Scaloppe era o anticandidato a reitor e entre outras tinha essa bandeira de luta. Discordava dele em quase tudo e ainda discordo, mas nessa questão fechei com o então candidato. Pena que ele aderiu ao poder e transferiu-se para a calorosa cuiabania.
Só para se ter ideia da colônia que o CPR (CUR) é de Cuiabá, um pneu furado aqui era levado até lá para ser remendado. É mole ou quer mais! Em 1983, a sede da colônia cuiabana montou uma escola de lata aqui (igual aquela nova da Suplicy em Sampa) que o povo da capital não deixou montar lá para ser estufa de planta. Eu estudei na estufa de lata aqui, suava feito um infartado durante as aulas e vi o Polizel usar toalha de rosto para secar o suor ao ensinar Cálculo. Isso é colonialismo brabo. Coisa de gente atrasada mesmo. Hoje estão lá a prefeitura do campus e alguns centros acadêmicos. Parece que a vergonha nunca será demolida. Afinal, para albergar rondonopolitano pode!
Tempos depois fui aprovado em concurso público e me juntei ao amigo Tati na inglória luta de criar uma nova universidade federal em Rondonópolis. Desde a divisão do Mato Grosso em dois estados que o Tati, entre tantos outros, briga pela criação dessa universidade. Ele, como eu, anda delirando teorias conspiratórias para explicar essa luta sem fim. Acho que é macumba ou coisa pior.
Afinal, quando houve a divisão do estado, o nosso campus era parte da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, com sede em Campo Grande, que simplesmente não queria manter um campus em outro estado. Ao mesmo tempo, a UFMT, com sede em Cuiabá, não queria assumir um campus pertencente a outra universidade. O CUR sempre foi um rejeitado. Ninguém queria e nem quer. E como explicar o motivo de não nascer uma nova universidade naquele momento? Talvez, só talvez, o Tati tenha razão e a CIA (agência de espionagem americana) esteja por trás disso, como está por trás do narcotráfico internacional junto das FARC colombiana.
Os mineiros aproveitaram o mesmo período e criaram a UFOP, UFV, UFLA, UFU, UFJF e a Unifal. Sem contar a expansão da grande UFMG em Belo Horizonte. O Mato Grosso, com toda essa extensão territorial, permanece até hoje com uma única universidade. Se todos dizem que são a favor da Universidade Federal de Rondonópolis, por que ela não é criada? Até no Vale do Jequitinhonha, na região mais pobre de Minas Gerais nasceu uma universidade federal, então o que impede a criação da nossa?
Se todos são a favor e por isso nada acontece. Então, a partir de agora eu sou contra! Sou contra os conselhos superiores da UFMT em Cuiabá, sou contra a reitoria e suas pró-reitorias, sou contra qualquer coisa acertada na capital. Sou contra a paz entre rondonopolitanos e cuiabanos até a autonomia total do CUR. Quero a luta ferrenha e feroz entre nós e eles. Quero a independência do CUR já.
Vamos recrutar os índios que ainda restam por aqui e vamos nos pintar para a guerra. Vamos criar um novo movimento social, tipo Movimento dos Sem-Universidade – MSU. Vamos fazer barricadas no trevão da BR 163/364. Vamos fechar o espaço aéreo e os corichos pantaneiros.
O Tati está com a cabeça branquinha e daqui uns tempos ele canta para subir sem ao menos ver o sonho concretizado. A fila de pioneiros do CUR está andando. Eu, infartado ultrapassei alguns mais velhos como Ubaldo, Jorge e Manoel na fila de subida (ou descida) e pelo jeito não verei isso acontecer. Mas, agora sou do contra. Contra o colonizador cuiabano. Sou a favor da UFR já e sei bem o quanto essa decisão é política. Claro que tem gente aqui dando para trás, mas vamos acabar desmascarando essas traíras que dizem ser a favor, mas puxam o barco para o barranco. Vamos desconfiar daqueles e daquelas que dizem algo como: no ano que vem retomamos esse tema.
Só vote em político que crie a UFR já. Quem sabe até as eleições de outubro o CUR não vira UFR. Sonhar ainda é possível e permitido.

(*) Ruy Ferreira é professor da UFMT desde 1995. Foi aluno da UFMT entre 1983 e 1985.

2 comentários

  1. AIRES JOSÉ PEREIRA disse:

    Caro colega prof. Ruy Ferreira, eu, apesar de não estar mais no Estado de Mato Grosso, entendo muito bem a sua angústia em ter uma Universidade Federal aí em Rondonópolis. Quando afirmo isso é porque, como você fui graduado e especializado também pelo CUR e só não efetivei, mas fui prof. substituto duante cinco semestre aí no Campus. Apesar de eu não fazer mais parte desse mundo daí, ainda sonho e ver essa emancipação política do referido Campus. Em relação às Universdades Federais espalhadas pelas “Gerais”, há uma pequena grande diferença. A produção intelectual deles é muito grande. Não quero aqui dizer que você prof. não produza, mas existem muitos professores aí nesse Campus que já estão aposentando sem escrever e publicar um livro! Fica difícil tornar um Campus em Universidade se não há produção… Quantos mestrados e Doutorados o Campus possui? Atualmente moro numa cidade do interior do Tocantins chamada Araguaína. Por incrível que pareça, temos apenas 07 anos de funcionamento mas já temos dois mestrados e um doutorado à todo vapor e, na eminência de criar outros. O Caminho do CUR para se tornar UFR passa necessariamente pelo produção intelectual também, além da questão política. Outra coisa, quando se fala em Minas Gerais é preciso levar em consideração que o povo dali é muito mais politizado que o povo de Mato Grosso.

  2. Ruy Ferreira disse:

    Caro colega Aires. Realmente o mineiro é muito politizado e extremamente bairrista. Farinha pouca meu pirão primeiro é o lema que conduz aquele povo sagaz. Quanto a produção intelectual posso lhe afirmar que não é só isso que transforma um campus em universidade autônoma, pois se fosse assim a UF do Vale do Jequitinhonha nunca teria saído do papel. Claro que aqui se produz pouco em relação à UNICAMP. Mas, se o critério intelectual é deixado de lado em Minas porque deveria valer aqui. A lógica é simples: a decisão política sobrepõe a legal. E é isso que teimo em escrever sem subterfúgios. Cerre ombros conosco, a luta também é daqueles que amam essa terra e você é um desses. Abraços saudosos e fraternos.


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