A idade, atualmente, é algo muito valorizado pela sociedade e, portanto, sempre salientada. Em muitos eventos e situações de nossa vida, temos que nos reportar a essa questão, explícita ou implicitamente.
Como argumentos de que a sociedade sempre valorizou a idade, o historiador francês Philippe Ariès (1914-1984), em seu livro História social da criança e da família (1981), cita: a imposição de Francisco I, na França, em tempos muito remotos, sobre a inscrição do nascimento nos registros paroquiais; as referências às idades nos retratos, principalmente os do século XVI; o fato peculiar de datar móveis, como uma espécie de “transcrição histórica” e, ao mesmo tempo, posse.
Assim como hoje são importantes alguns pesos e medidas científicos, na Idade Média “a idade do homem” passou a ter teor científico. As idades correspondiam ao número de planetas vigentes à época: sete. Vejamos:
Infância – até 7 anos;
Pueritia – dos 7 aos 14 anos;
Adolescência – dos 14 aos 21, ou segundo Isidoro – dos 14 aos 28 anos;
Juventude – até os 45, ou segundo os outros autores – até os 50 anos;
Senectude – meio caminho entre a juventude e a velhice;
Velhice – até os 70, ou segundo os outros – até a morte;
Senies – a última parte da velhice.
Na Idade Média, as idades representavam funções sociais: relacionava-se o conhecimento e a sabedoria com a imagem de um velho barbudo – aquele cujo tempo e a vivência lhe somaram experiências que deviam ser referendadas.
Já a adolescência, até o século XVIII, era considerada como infância. A origem etimológica de “adolescência” está em “ad” (‘para’) + “olescere” (‘crescer’), sendo oriunda do latim. Hoje são fases distintas. Há até a pré-adolescência, uma espécie de preparação para essa fase, em que os jovens sofrem uma indefinição ainda maior.
Nos séculos XVI e XVII, a infância era ligada a uma ideia de dependência e se mantinha até os 24 anos. As palavras utilizadas para remeterem a esse período da vida também eram empregadas nas relações feudais ou senhoriais de dependência, uma alusão clara às relações de poder.
No século XVII, na França, não havia distinção nas palavras e expressões para designar crianças pequenas e as maiores. Assim, foram emprestadas de outros idiomas. Como exemplo: a palavra bébé, oriunda do inglês baby, que emprestou para outros idiomas, como o espanhol: bebé.
A partir do século XVIII, passamos a ter uma valorização da fase compreendida como adolescência. De uma época sem infância, vamos a uma época em que a adolescência era sinônimo de beleza e vitalidade. Isso se mostra bem nos romances brasileiros do século XIX, a exemplo de “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo, em que a personagem principal é uma graciosa adolescente de 14 anos, uma “moreninha” muito jovem, travessa, inteligente, astuta e persistente na obtenção de seus intentos. Carolina – é esse o seu nome – encarna a jovem índia Ahy, que espera incansavelmente por seu amado Aoitin – uma antiga história da ilha onde se passa a maior parte do desenlace do romance, narrada pela avó da menina, D. Ana.
A França antiga considerava a velhice a idade da caduquice. Mas o velho atual, algumas vezes, é revigorado como um jovem, como se vê no romance “Memórias de minhas putas tristes”, do colombiano Gabriel Garcia Márquez, obra bem recente que narra as aventuras de um velho cronista e crítico musical que, em seu aniversário de 90 anos, pretende presentear a si mesmo com uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Porém, ao vê-la dormindo, não tem coragem de acordá-la e se apaixona por uma garota adormecida. O romance mostra como um idoso teve sua vida tomada pelo medo do amor, e aos 90 anos descobre o verdadeiro prazer da vida.
A comemoração do aniversário é uma prática social tradicional, assim como diversas vezes temos que nos reportar à idade. Isso ocorre porque a idade acaba que nos escravizando a certas atitudes e comportamentos, pois, se não podemos modificá-la nem determiná-la, a nós cabe nos submetermos às suas imposições sociais.
Quando criança, somos “prisioneiros” de casa, pois a idade determina que sejamos protegidos por nossos pais. Na adolescência, por diversas vezes nos censuram quanto ao namoro, visto que a idade ainda não nos “libertou”. Mas, quando adultos, não só somos “liberados” como cobrados a uma série de comportamentos esperados nessa faixa etária, como exemplo principal o trabalho. Velhos, perdemos a credibilidade, pois convencionalmente junto à velhice está a caduquice.
Mas nós nos acostumamos a isso. As normas sociais nos moldam de tal forma que, involuntariamente, nos agrupamos de acordo com a faixa etária. Exemplo atual e institucional é a escola organizada em ciclos, em que alunos são promovidos de acordo com a idade e não com as habilidades adquiridas.
Caterina Lloret (1998), em seu ensaio “As outras idades ou as idades do outro”, endossa essa ideia de adequação etária. Afinal, é prática social enxergar as pessoas pelas idades, como ocorre com o ciclo de formação humana nas escolas públicas. A autora nos traz, a base de elucidação, a teoria de Gauss. Das três etapas delineadas pela curva de Gauss, é perceptível a mais respeitada e considerada na sociedade, pois, se a criança ainda se construirá e o velho já se declinou, é o homem adulto a figura preponderante. Tal concepção, impregnada de preconceito, deveria ser destituída, pois, como ressalta a autora, “uma idade não elimina a outra, mas a contém”. A criança é “o pai do homem”, como preconizou Montessori, pois é ela que o gera e o faz crescer. O velho, por sua vez, embora a idade lhe tenha furtado alguns traços de memória, corresponde ao acúmulo do conhecimento adquirido nas outras duas etapas.
Contudo, apesar das considerações salientadas, não se pode negar que os valores relacionados à idade é um sentimento intrínseco que acompanha o homem desde tempos remotos, como a época da pré-descoberta da infância (Ariès), e perdurará enquanto vivermos em sociedade.
(*) Márcio Cândido de Oliveira é professor das redes municipal e estadual de ensino de Rondonópolis e atual mestrando no Programa de Pós-Graduação da UFMT/CUR