Na página policial

A editoria de política da maior parte dos jornais brasileiros tem necessitado estudar muito direito civil e criminal para conseguir atender as demandas de reportagem com significado e distinção. Principalmente para aqueles que fazem jornalismo investigativo ou opinativo ao invés de somente informativo, que é a prática da maioria.
Observem bem as manchetes nas editorias de política. Fulano é alvo de denúncia, outro é preso, um terceiro tem os bens indisponibilizados, desemperra processo contra prefeito, político A acusa B de desvio de recursos e assim por diante. É de longa data que projetos de desenvolvimento e posturas éticas patrocinados por políticos estão cada vez mais raras nas chamadas de capa dos jornais.
Política possui tanta lógica quanto o formato das nuvens no céu, mas vamos utilizar ela para justificar o argumento. Se você desconfia de que alguém botou a mão no dinheiro alheio ou tentou enganar alguém para obter vantagem ele é no mínimo suspeito de roubo. Portanto, como se diz na gíria, é um tremendo 171 (artigo do código penal que se refere a estelionato). Logo, não deveria aparecer na página de política e sim na policial.
Sabe-se que as páginas policiais normalmente são as que capitaneiam a venda de jornais. O brasileiro em particular tem certa predileção pela tragédia alheia. Mas, é de se observar que no momento caminhamos para uma certa discrepância entre as duas editorias. É fácil perceber que na prática, a maior parte das notícias de política deveria estar nas páginas policiais, dado o seu conteúdo hediondo.
No Brasil, temos nos ocupado em reeleger os candidatos. Reiterada e alternadamente, com raras e honrosas exceções, os mesmo políticos tem se perpetuado no poder, mesmo depois de muitos deles estarem envolvidos em tramóias, acusados de impropriedades administrativas ou algo pior.
Contudo, este é um ano particularmente importante para o Brasil. Dentre outras curiosidades relevantes, é a primeira vez desde o fim da ditadura e o restabelecimento da democracia no país que o Sr. Luis Inácio não será candidato. Estará empenhado em fazer com que a sua indicada vença, mas ele pessoalmente não será candidato.
A propósito da campanha eleitoral é outro assunto em que boa parte dos discursos, se levados ao pé da letra, vão direto para a página policial, ao invés de figurar no caderno de política.
Pelo menos metade do que será dito nas campanhas deste ano, pessoalmente entre os candidatos adversários e também pelos seus apoiadores, deveria ser motivo de processo judicial. Se estivéssemos num país sério, provavelmente resultaria em cadeia, do acusado ou do acusador, ou ainda de ambos.
Com essa mudança em andamento, o caderno de polícia se tornará um ótimo lugar para anunciar, pois certamente será a maior parte do jornal e por isso será o espaço predominante para a publicidade das marcas. Seria hilário se não fosse trágico. Mas como disse, gostamos de tragédia, desde que não seja a nossa a virar notícia.
Do modo como muitos políticos estão se comportando e aparecendo na mídia, é bem provável que no longo prazo, a editoria de política possa até desaparecer dos jornais. Pois quase tudo que dirá respeito a essa classe será noticiada pela editoria de polícia, tamanha é a freqüência com que promovem escândalos, falcatruas e indícios de estelionato.
O lado positivo, se haverá um a ser considerado, talvez seja a maneira de mais pessoas se interessarem por política, começando a se inteirar mais das práticas que seus eleitos promovem e, quem sabe, no longo prazo consigamos tornar o Brasil um país mais politizado. Triste, mas são os fatos.
Boa Semana de Gestão & Negócios.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É Diretor de Relações com o Mercado do IBG, professor e palestrante – elerihamer@portalibg.com.br

Deixe seu comentário

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *


Compartilhe esta Notícia