A maior parte das pessoas espera boa parte do ano para degustar o momento de sair de férias. Alguns parcelam o período em duas vezes, metade no final do ano e outra no meio. Tem aqueles que acumulam várias e nunca tem tempo para aproveitar, são desorganizados de algum modo, financeiramente ou no trabalho. Há os que se limitam há alguns dias e vendem o resto ou voltam rapidinho para a empresa com medo de alguém ocupe o seu lugar. Por fim, os privilegiados, que tiram férias duas vezes por ano, e cada uma delas dura seis meses. Parece-me o melhor modelo.
Pra começar, ando cismado com o sentido do termo. Da forma mais usual, o termo ‘tirar férias’ é no mínimo estranho. Leva-nos a crer que ficamos, ou alguém fica sem algo, quando na verdade a sensação é agradável, de que ganhamos e não perdemos. Desconheço a origem da palavra (etimologia), mas é provável que seja em relação ao dinheiro, por que é da falta dele que normalmente padecemos quando voltamos das tais férias.
Mas essa não é a discussão central desse artigo. A ideia é analisar a prática daqueles profissionais que preparam as malas, alimentam esperanças familiares, saem de férias, mas na prática não conseguem se desligar das atividades diárias e por isso não estão de férias.
Com os meios de comunicação se tornando cada vez mais diversificados, eficientes e populares é natural que se desligar do trabalho não é mais uma questão óbvia, precisa ser uma decisão declarada e executada. Caso contrário não vai fazer a mínima diferença se você está na praia ou no seu escritório. Continuará conectado a tudo.
Há pouco tempo encontrei uma matéria publicada no site de uma revista de circulação nacional apontando equipamentos, estratégias e mecanismos para que os profissionais pudessem sair de férias e mesmo assim se mantivessem conectados sem perder nenhum negócio.
Fiquei imaginando quais seriam os principais motivos para alguém tirar férias se não o de descansar, recarregar as energias, oxigenar o corpo e a mente, além de reavivar o convívio familiar, normalmente desestimulado pelas atribulações diárias. Espera-se que, após gozar das férias efetivamente, retornar às atividades cotidianas com novas idéias, melhor estruturado mentalmente, capaz de imprimir melhor qualidade de vida.
Enquanto as férias são um período ansiosamente aguardado pela família, principalmente pelos filhos, quando finalmente eles voltam a ser o centro das atenções, e outros interesses tornam-se centrais, em detrimentos dos negócios, das discussões com estranhos ou dos arranjos comerciais, a proposta da matéria fazia referência justamente ao contrário. Viabilizar que tudo ficasse exatamente como antes. Com a diferença de que agora o escritório acompanha a pessoa esteja ela onde estiver. Que férias são essas?
O interessante é que há muitos que não conseguem se desligar, mesmo no período destinado para o descanso. A pior parte, no entanto, é que a maioria se sente tranqüilos com isso e acreditam que práticas desse tipo não atrapalham as férias dos filhos e esposa ou marido. A questão é que hoje, a qualquer tempo, temos oportunidade de sermos incomodados.
Precisamos considerar alguns fatores que possam justificar atitudes dessa natureza para que essas pessoas as considerem como algo normal. Uma delas é a falta organização no próprio trabalho e o incipiente processo de descentralização das atividades. Em seguida pela insegurança de que o controle da empresa escape das mãos, somado à necessária disciplina para reconhecer e exercitar um momento que faz parte da própria natureza do trabalho.
Em resumo, se não consigo me desligar nesse período, a minha empresa não está organizada para isso, escolhi o período errado ou ainda não tenho firmeza suficiente para definir o que de fato preciso fazer, mas às vezes não tenho coragem.
Boa Semana de Gestão & Negócios.
(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É Diretor de Relações com o Mercado do IBG – Instituto Business Group, professor e palestrante – contato@elerihamer.com.br