Professor, carreira e salário

Um dia desses, numa ensebada revista de consultório médico, deparei-me com uma manchete: “a classe média desistiu do ensino público”. Ou seja, o único segmento da sociedade que tem por hábito exigir da escola ensino de qualidade migrou integralmente para o setor privado da educação. Como as classes baixas acreditam que basta ter acesso, pronto: os sistemas públicos de ensino estariam abandonados à própria sorte.

Os poderes estatais têm implantado, formalmente, inúmeras políticas públicas para a educação que, a rigor, precisariam ser desenvolvidas pelos professores. A lógica é essa mesma: o poder constituído formula, custeia e os funcionários estatais (públicos) executam.

Porém, entre a formulação e a execução há um abismo. E os servidores têm o poder de executar ou não tais políticas. A rigor, só ensinam o que sabem e o que querem.

E por que isso? Por incontáveis razões: condições de trabalho, ambiente inadequado, formação precária, má vontade, desânimo, doenças típicas da profissão, falta de incentivo, má gestão, ausência de coordenação, má vontade dos meninos e meninas, indisciplina, outros vínculos de trabalho, salários desestimulantes, e tantas outras.

Dentre essas razões, quero tocar na questão salarial. Será que é possível ao professorado sonhar que um dia terá bons salários? Certamente não. Como estamos falando de uma profissão que envolve multidões pagas com recursos públicos, jamais os professores terão altíssimos salários. Não nos iludamos.

Porém, é possível construir uma política salarial que valorize o professor para além do mero discurso elogioso, que permita avaliar o seu trabalho e, sobretudo, torne a carreira mais atraente.

Quem olha a tabela de salários da SEDUC/MT, por exemplo, percebe que ela tem 05 classes e 11 níveis, se não me engano. Quando comparamos o valor nominal do salário do professor ingressante, graduado, com o valor nominal do salário do professor com mestrado, com 30 anos de trabalho, observamos que o salário apenas dobrou. Ou seja, o docente começa com algo em torno de R$ 1.300,00 (+ ou -) e termina, depois de 30 anos trabalhados, com algo próximo de R$ 3.000,00. Isso é muito pouco para uma vida de trabalho.

A saída teria que ser negociada e uma alternativa seria criar algo paralelo ao plano regular da carreira, sem mexer no que está posto em termos do plano atual. Estado e sindicato poderiam, na mesa de negociação, construir dois benefícios, ou abonos – ou sei lá o que? – a cada 10 anos de trabalho, que torne a carreira mais atraente e, sobretudo, estimule o professor a cuidar, a investir na sua própria formação.

Por exemplo, a cada 10 anos de efetivo exercício, o professor seria submetido a uma avaliação na sua área de conhecimento e atuação e, uma vez superado esse exame, receberia um valor de 30% sobre o salário básico. Caso ele seja reprovado, poderia repetir o exame por mais uma vez, no ano seguinte. Quando completasse 20 anos de trabalho, novamente o processo se repetiria. Assim, com 30% sobre os 30% corrigidos dentro do processo normal de correção, ao final da carreira, com trinta anos de trabalho, ele teria, seguramente, o salário inicial multiplicado por três. Dos 1.300,00 iniciais, o docente se aposentaria com algo em torno de 5.000,00 – considerando o efeito cascata da correção regular.

E os poderes públicos suportariam esse impacto? Todos os gestores, especialmente os Secretários de Fazenda, vão dizer que não, pois só conseguem pensar na correção anual. Este é um processo que teria que ser engendrado no longo prazo. O primeiro impacto mais forte seria daqui a 05 anos, por exemplo, para todos os professores com 10 anos de casa. É plenamente possível ao Estado adotar tal política salarial mas, para tanto, há que parar de construir escolas só para agradar prefeitos e empreiteiras, pois estamos com o crescimento populacional absolutamente estabilizado, com número de matrículas estagnado. Não há qualquer necessidade de expansão de rede. Há necessidade, sim, de reformar escolas. Com os 3 milhões gastos em uma escola nova, reforma-se 4 ou 5 boas unidades.

Em resumo, o poder público tem que mudar a lógica simplista de achar que a qualidade da educação se consegue a preços módicos. Ter bons profissionais, estimulados, fazendo um bom trabalho, mostrando resultados, é algo que custa mais caro que fazer obras. Se não se investir volumes considerados de recursos nos profissionais da sala de aula, não teremos bons resultados por muitas e muitas gerações.

(*) Antonio Carlos Maximo, professor da UFMT – antoniomaximo@terra.com.br

Deixe seu comentário

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *


Compartilhe esta Notícia