As previsões de médio e longo prazo para o mercado mundial de carne bovina são muito favoráveis para o Brasil e vale a pena analisá-las agora, nesse momento em que a crise no mercado financeiro mundial começa a ter efeitos na economia real. Os países desenvolvidos devem crescer muito pouco nos próximos anos. Nos EUA e Reino Unido, a crise já chegou à economia real, com claros sinais de recessão. O crescimento virá dos países emergentes. A China revisou sua previsão de crescimento em 2008, de 10,1% para 9,0%, um número ainda bastante expressivo.
O gráfico abaixo, uma previsão do FMI, indica um crescimento do PIB mundial na ordem de 3,9% em 2008, 3% em 2009, 4,2% em 2010, 4,8% em 2011. Ou seja, depois de alguns anos de forte crescimento, em 2008 e 2009 o mundo cresce menos, iniciando uma recuperação entre 2009-2010. No gráfico, a linha azul representa os países emergentes, a vermelha os desenvolvidos e a cinza a média mundial.
A demanda mundial por carnes no mundo cresce graças ao aumento da população, aumento da renda per capita e urbanização (ou seja, mais pessoas vivendo em cidades e menos no campo). O consumo vai aumentar onde isso mais ocorrer, logo pode-se esperar crescimento de consumo em países emergentes, em crescimento e com aumento do percentual da população que vive nas cidades. O país que melhor representa as mudanças causadas por essas três grandes tendências é a China.
Países emergentes
O Brasil, em 2008, concentrou muito mais suas exportações para países em desenvolvimento, em especial para países exportadores de petróleo. A impossibilidade de exportar grandes volumes para UE, devido a problemas com rastreabilidade, ajudou nessa concentração. A China, por exemplo, consome hoje 24% de toda carne (suína, aves e bovina) do mundo. E é o país onde o consumo mais vai aumentar (em volume absoluto) até 2015.
Rússia
O principal país comprador do Brasil em 2008 é a Rússia, com 31% de toda carne bovina exportada pelo Brasil. Em março desse ano, a revista inglesa The Economist publicou uma reportagem sobre a economia russa e sua dependência do petróleo. Analisava que o país tinha melhorado muito de situação nos últimos anos, com crescimento de quase 7% ao ano. Os salários na Rússia passaram de US$125/semana em 2002, para US$500/semana em 2007, segundo Sergey Yushin, presidente da NATMEAT (associação russa de empresas de carne).
Mas isso ocorria graças às exportações de petróleo, segundo a revista, e que o país não tinha feito uma série de reformas, como combate à corrupção, e investimentos em produção. Previa um cenário negativo para o futuro. No entanto, de março para setembro, o petróleo só subiu, saindo de um patamar de US$100/barril para mais de US$140/b em julho. Ou seja, depois de março, a alta do petróleo mascarou ainda mais as fragilidades apontadas. O problema é que atualmente o petróleo está valendo por volta de US$60/b.
Países desenvolvidos
As importações também devem crescer nos EUA e UE, graças à limitação de oferta interna e demanda constante. Segundo dados da Gira (consultoria européia de carnes), os EUA são o segundo país (depois da China) que terão o maior aumento absoluto nas importações. Em tempo, os EUA são hoje os maiores importadores de carne bovina do mundo, mercado que o Brasil ainda não atinge, devido a impasse na área sanitária.
A UE também terá aumento nas importações (e redução das exportações). O custo de produção na Europa cresce, abrindo cada vez mais espaço para outros países, como Argentina, Uruguai, Paraguai e principalmente Brasil. A UE, que há cerca de 10 anos exportava um milhão de toneladas por ano, deve passar em poucos anos para importador de um milhão de toneladas. Ou seja, passa de concorrente do Brasil nas exportações (vendedor), para importador (cliente ou comprador) do Brasil.
Para atingir mercados em países desenvolvidos, será preciso se adequar às regras e normas de cada país. Hoje o Brasil está fora dos EUA devido à aftosa, e fora da UE por causa da rastreabilidade. A meta da ABIEC é começar a exportar para os EUA, tendo como previsão de receita com as exportações totais do Brasil para 2013, US$ 13 bilhões, quase três vezes o valor atual.
Desafio ambiental
Os desafios para o Brasil conseguir aumentar suas exportações também passam pela questão ambiental. Essa será uma exigência cada vez maior e o Brasil precisará ter uma postura mais pró-ativa. A imagem brasileira lá fora, frente a essa situação é negativa e esse tema será explorado cada vez mais por concorrentes e lobistas.
Produção de carne no mundo
Em setembro, ocorreu na África do Sul o principal evento mundial dedicado ao mercado mundial de carnes, em especial bovina, suína e ovina, quando palestrei sobre as tendências da produção e mercado no Brasil. Mais de uma dezena de palestrantes apresentaram dados, tendências e expectativas para a produção e mercado de carnes, em inúmeras regiões do mundo. Os principais países produtores, importadores e exportadores estavam representados. Ficou muito claro que o consumo de carnes vai crescer muito nos próximos 10 anos. No caso da carne bovina, a grande questão é a oferta, a produção.
A principal lição que tirei do congresso foi que o mundo entende cada vez mais que produzir carne bovina é caro, demorado e difícil.
A situação da UE e dos EUA é parecida. Não há perspectiva de aumento do rebanho, os custos aumentam e a produtividade não tem muito como crescer. A Rússia tem diversos planos de investimento visando aumentar a produção própria de carne suína e de frango, mas tem grande dificuldade de aumentar sua produção de gado de corte. Seu rebanho bovino diminuiu enormemente, em menos de 20 anos caiu para 1/3 do rebanho de 1990.
Devido à oferta limitada e dos custos de produção (e preços) mais altos que outras carnes, o consumo mundial de carne bovina cresce, mas menos que outras carnes.
Os dois grandes aumentos da produção de carne bovina para os próximos 10 anos devem vir da China e do Brasil. A produção chinesa é quase toda voltada para o mercado interno. O problema na China é a falta de água, que pode impedir esse crescimento.
Nesse cenário em que muitos países produtores tendem a não aumentar sua produção (ou a diminuir), pelo fato da avaliação econômica da atividade ser negativa, o Brasil ganha espaço, em especial os mais eficientes, produtivos e lucrativos.
(*) Miguel da Rocha Cavalcanti, engenheiro agrônomo pela Esalq/USP, pecuarista e Diretor de Marketing da AgriPoint, www.beefpoint.com.br
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