Publicado em 15 de outubro de 2008

O dono da árvore

Dia 05 de outubro já pertence ao passado. Cada cidadão que compareceu às urnas fez sua escolha. Será que basta ter tirado um tempinho do domingo para votar, ter seu comprovante de missão cumprida e pronto? Mas o que é que se inicia com uma nova gestão? Melhor dizendo, o que é que tem continuidade na gestão que ora começa? Quem é que vai acompanhar o prosseguimento do trabalho em cada cidade, senão aqueles que elegeram seus representantes? Ou seja, não foi alguém - anônimo - que votou. Cada eleitor tem sua identidade, com impressão digital ímpar.

Rubem Alves consegue poetar política fazendo metáforas com jardins, concedendo ao político o lugar distinto do grande poeta que, diferente do poeta comum, tem o poder nas mãos, para transformar sonhos de jardins em jardins de verdade. Indo por essa vertente, nossa cidade nunca foi um deserto. Muito ao contrário, tem terra fértil e vegetação abundante favorecida pelo clima, livre das intempéries da natureza. Não carecemos de um trator que acabe com tudo para iniciar novo plantio. Não se despreza as boas árvores plantadas ao longo da história. Elas só precisam de cuidado para continuar florescendo e dando frutos a cada estação.

Quando dizemos que a verdadeira educação vai muito além do saber ler e escrever podemos pensar inclusive na postura por cada um assumida diante do que fala, em outras palavras, do que vota! É fácil brincar com a língua portuguesa com o bem humorado jeito brasileiro de dar jeitinho em tudo. Mas é possível preservar o bom humor com a seriedade pertinente à responsabilidade. Quando o patrimônio é PÚBLICO o que deveria ser entendido? Através do dicionário confirmamos que o adjetivo qualifica aquilo pertencente ou destinado ao povo, à coletividade; que é do uso de todos. Não é um adjetivo raro. Mas será que esse saber tem seu peso na hora de arcar com nossa parcela de contribuição com o PÚBLICO que nos pertence?

Voltando aos jardins, basta parar e observar a maioria das praças de nossa cidade e perceber como o referido adjetivo é interpretado por nós que formamos o mencionado povo. Ao invés de contar com o zelo de todos que são seus donos legítimos, o cuidado fica por conta do governo. O órgão PÚBLICO que tomou a iniciativa de construir que continue cuidando. Até quando educação implicará apenas em não ser analfabeto? 500 anos de Brasil não foram suficiente para cada brasileiro fazer sua parte?

Não precisamos de grandes manifestações para perceber o status de cada dito cidadão. Cenas simples do cotidiano ilustram. Aconteceu entre duas vizinhas que gostavam de plantas. Ambas cultivavam jardim e tinham árvores na calçada. Veio o jardineiro de D. Filomena. Cuidou do jardim e podou as árvores da frente de sua casa. Dias depois, chegou o jardineiro de D. Cida. Esmerou-se no trato de seu jardim e das árvores da calçada. E uma “natalina”, assim chamada por florir na época do Natal no Sul do país, mas que aqui adorna a cidade o ano todo, influenciada pelo clima, não mereceu atenção. A façanha se repetiu algumas vezes. A única arvorezinha florida daquele quarteirão não contava com zelo de ninguém. Reagia com galhos saindo pouco acima das raízes, florindo quase rente ao chão, com aspecto silvestre. D. Filomena, intrigada, resolveu pedir autorização à vizinha, para que seu jardineiro se ocupasse do arbusto. Autorização prontamente concedida: “Minha querida, fique à vontade. Essa árvore não é minha não… foi a Prefeitura quem plantou”!…

Já parou para observar quantas natalinas estão cuidadas nas calçadas de nossa cidade e quantas outras crescem ao gosto da natureza? Branca, lilás, rosa claro ou rosa mais forte, lá estão elas, floridas pela cidade toda.

Mas quem é mesmo o dono da árvore?…

*Correspondente da Delegação Geral - Mato Grosso do Sul/Mato Grosso - da Escola Brasileira de Psicanálise

CRP 14/00435-0 - Psicoclínica - 3421 5684

1 comentário

  1. Arnaldo Cerioni Filho disse:

    O autor ilustrou com bastante propriedade o comportamento das pessoas quanto à sensação de posse de árvores e arbustos de calçada como também o processo de exclusão a que são submetidas as pobres “natalinas”. Assim como o princípio de propriedade delega a quem plantou a posse de uma árvore, talvez um prefeito não se sinta no dever de cuidar de uma pobre criança ou adulto que a exemplo das “natalinas” vive de teimoso, seja em áreas livres ocupadas ou nos baixos de viadutos. Pudera, a maioria é analfabeta e não vota né !
    O pior é quando o viaduto localiza-se na divisa entre dois municípios, a exemplo de Osasco (onde moro) e de São Paulo.

    Mas quem é mesmo o dono do viaduto ?


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