Publicado em 17 de setembro de 2008   |   Fonte: José Medeiros

Big Brother Brasil

Foi-se o tempo em que o sujeito podia namorar ao telefone com a certeza de que só os dois estariam fazendo parte da conversa. Hoje, com a parafernália eletrônica disponível no mercado, é bem possível que os pombinhos tenham como companhia algum agente do estado bisbilhotando e até se deliciando com as confidências alheias. A telefonia virou rádio comunitária, estas foram palavras do próprio ministro da Justiça.

Se, por um lado, foi positivo pelo resultado das escutas, é verdade também que trouxe efeitos colaterais terríveis, pois o avanço tecnológico elevou a arte da bisbilhotagem a patamares nunca imaginados. Um dos aparelhos usados pela PF e outros bisbilhoteiros, chamado ‘Guardião’, tem um poder de armazenamento com uma tecnologia agregada, onde a partir do telefone grampeado, dependendo da vontade do operador, a cada ligação feita é possível grampear o novo aparelho num efeito teia de aranha.

Então, é possível que com uma única autorização judicial, se bisbilhote uma infinidade de aparelhos. Segundo dados publicados na imprensa, no ano passado o número de telefones bisbilhotados pelas polícias passou de 300.000. Os mais insensatos estufam o peito e dizem que acham bom. Eu acho muito perigoso, prefiro uma polícia competente, com estrutura e um poder de investigação que vá além da passividade das escutas.

Este avanço tecnológico tem transformado a polícia, principalmente a Federal, em uma polícia preguiçosa, que vive do que escuta, e não tem sido raras as vezes que em que nestas operações ocorrem erros primários, como por exemplo invadirem a casa errada, ou seja investigaram ou melhor escutaram durante meses e nem o endereço correto do suspeito tinham. Em levantamento feito por um jornal carioca foi verificado que somente 5% das pessoas presas nestas megaoperações resultam em condenação. Há casos em que a polícia não sabe nem quem é o investigado, só conhecem a voz, o nome e o endereço é pinçado de algum cadastro, nem sempre atualizado.

Recentemente, a Polícia Federal, nesta operação “solta e agarra” invadiu o consultório de um dentista, arrombaram portas e depois descobriram que não se tratava do suspeito, tinham cometido um erro.

É o resultado dos novos tempos, onde parece que perdura o pensamento de que o estado pode tudo, inclusive cometer todo tipo de ilegalidade como meio para chegarem ao objetivo final, que é poder mostrar para as câmeras um peixe graúdo. Este contrato social está ficando caro demais, é muita liberdade individual despendida em prol desta suposta segurança.

Parece um contra-senso. Mas o estado, apesar disto, mostra através das suas diversas subdivisões uma vontade imensa de agradar o povo. Basta ver a briga entre os poderes, entre as agências, entre as polícias, disputam cada centímetro de mídia, tentando mostrar serviço.

Mas como tudo que é demais enjoa, o cidadão já não agüenta mais, já ficou cafona este monte operações com nomes de bichos, mitologia grega, etc.

Não sei… Sempre fui fã da discreta atuação dos bombeiros, que todo santo dia fazem mais pela população que muita gente que vive de peito estufado, querendo ser mais importante que os outros. Entretanto, nunca vi os bombeiros com plano de marketing. Fazem o marketing direto. A cada cliente que o bombeiro atende é satisfação garantida, porque são competentes e simplesmente fazem o seu trabalho.

A segurança pública precisa de uma reformulação geral. Chega do Estado se meter na vida do cidadão desta forma invasiva, onde está surgindo uma orda de justiceiros bradando a espada da justiça com a pretensão de salvar o mundo, passando por cima de tudo que é preceito legal.

Eu morro de medo quando o Estado começa querer me proteger. Já sei que a conta vai ser cara. Já bem dizia o velho ditado, esmola grande até o santo desconfia.

(*) José Antônio dos Santos Medeiros é presidente municipal do PPS

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