Durante alguns anos, o ensino de Língua Portuguesa investiu no estudo da gramática tradicional, no conhecimento da descrição da língua, como se o conhecimento metalingüístico pudesse garantir, por si mesmo, o domínio de diversas possibilidades de uso da linguagem nas diferentes situações em que é produzida. Acreditava-se que, “conhecendo a gramática”, cada um de nós melhoraria o desempenho no uso social da língua. A produção de texto, quando trabalhada, era voltada para a tripartição tradicional ? narração, descrição e dissertação?, como se fossem somente esses os textos encontrados em situações autênticas de linguagem. As redações das escolas não incentivavam a escrita, porque não possuíam correspondência com o mundo real nem destinatário real. Eram escritas para o professor não como uma pessoa a quem se comunica algo, mas como avaliador.
Embora novas teorias tenham surgido, apresentando o texto como suporte para o ensino de língua materna, muito há que ser feito, pois algumas práticas ainda tomam o texto apenas como pretexto para exploração de formas gramaticais. Sendo assim, é importante que novos caminhos sejam traçados, outros resgatados e ainda alguns complementados na busca incessante de levar os alunos a tornarem-se escritores eficientes e leitores maduros e críticos, de forma a gerarem seqüências próprias, admissíveis e aceitáveis na estrutura da língua portuguesa, como meio de atuação social.
Nós, professores do ensino básico da Escola Estadual José Moraes, com o anseio de que nossos alunos se tornem esses leitores e produtores de textos, estamos desenvolvendo um projeto de leitura e produção de diferentes gêneros (Textos materializados que encontramos em nossa vida diária : carta, artigo de opinião, notícia, conto, fábula, receita, bula, poema…) durante os bimestres.
Elaboramos esse projeto por acreditarmos ser a escola o lugar da aquisição e do desenvolvimento de competências e que, por isso, deveria ser trabalhada a competência discursiva escrita dos alunos. Surgiu, assim, o desafio de despertar nos discentes essa necessidade de buscar sua competência discursiva escrita com uma atividade de linguagem que fugisse da prática descontextualizada das redações escolares. Desse modo, veio à tona o estudo dos gêneros discursivos e a compreensão de sua importância para o desenvolvimento de uma atividade de linguagem que visasse à interação social por meio da língua escrita .
Na Escola Estadual José Moraes, durante o segundo bimestre, os alunos encontraram nos livros, revistas e no jornal A TRIBUNA a oportunidade de escrever textos para realmente serem lidos por seus colegas de sala, da escola e pelos leitores dos suportes. Sentimos que essa atividade de linguagem proporcionou certa desmitificação do ato de escrever. Os alunos não gostavam porque não estavam habituados a escrever. Com a produção dos diferentes gêneros e com a certeza de que seus textos seriam analisados mais em função da configuração do gênero do que em função de erros e acertos de gramática, visto que para isso haveria o processo de revisão e de refacção, os alunos se sentiram mais motivados, confiantes e capazes. Além disso, a possibilidade de interagir com a escola e com seus colegas, por seus textos publicados, deu mais legitimidade à atividade de linguagem, o que afetou positivamente sua produção escrita.
Constatamos, assim, que os gêneros foram apreendidos satisfatoriamente e que os alunos tiveram uma progressão lingüística considerável, haja vista que algumas dificuldades foram sendo sanadas a cada nova produção.
Toda a variedade de gênero e de atividades fez com que as aulas não se tornassem monótonas e repetitivas, mas o envolvimento, o interesse e os resultados demonstraram que as aulas foram muito participativas, pois os alunos interferiam, questionavam, sugeriam, enfim, construíram conhecimento. Com isso, produziram textos significativos que abordavam fatos sociais concretos.
Acreditamos que todo o entusiasmo dos alunos durante o processo de produção e refacção seja pelo fato de que, desde o início, sabiam que os textos não seriam para o professor ler e atribuir nota, mas para divulgação ao público.
Com o trabalho que está sendo desenvolvido, cremos que esses alunos têm se tornado cidadãos usuários da linguagem escrita e falada de forma mais interativa. Além de estarem mais atentos aos textos como atos lingüísticos e retóricos, alvos de reestruturação dependendo do objetivo do discurso.
Dessa forma acreditamos que as atividades possibilitaram, além da aquisição dos gêneros, a formação do cidadão participante e atuante na vida social. Também aprendemos que, diante de todas as mazelas por que passa o ensino brasileiro, é possível ensinar, é possível aprender.
Obrigada a todos os alunos, professores, coordenadores, articuladores, diretor e colaboradores que têm feito com que o projeto “Cidadania em cena: os gêneros discursivos na aquisição do conhecimento” se concretize e ganhe força a cada dia mais.
(*) Rosilene Rodrigues de Carvalho é mestra em Estudos de Linguagem pela UFMT, professora de Língua Portuguesa na Escola Estadual José Moraes e na UESP-FAIESP.
Rosilene,como professora de Língua Portuguesa da escola pública -Ceará - há vários anos, observo a dificuldade que tem o aluno em lidar com a produção textual, e muitos manuais de redação ainda estão voltados para a “tripartição tradicional”:narração, descrição, dissertação, enquanto a intenção de um usuário, muitas vezes, ultrapassa esse esquema, veja o caso da resenha, por exemplo.
Na escola pública federal, lido com alunos de todo o Brasil, e observo que, na hora da produção escrita, ” a desgraceira” é, infelizmente, a mesma e acho o cúmulo um aluno chegar ao ensino médio com um nível tão baixo em todos os sentidos, desde o momento do traçado do alfabeto manuscrito, da leitura, à interpretação, à desenvoltura com relação à escrita.
Muitas vezes, até escritores têm dificuldade também de lidar com a fartura de gêneros textuais, daí talvez alguns se apegarem tanto à função emotiva da linguagem.
Amei o seu texto e irei repassá-lo aos professores de L. Portuguesa que conheço.
Eliane Arruda -CE
A gramática tradicional ainda parece prevalecer, pois alguns brasileiros não têm interesse em se libertar do período colonial, até por uma questão de privilégio. Existe uma tênue supervalorização da língua padrão, devido o forte apego que se tem às normas, no entanto os parâmetros propõem que se considerem as variedades lingüísticas, de forma que sejam desenvolvidas as competências comunicativas. Por que é que muitas vezes até os escritores têm dificuldades de lidar com as regras? Pelo simples fato de que as normas foram praticamente baseadas em Portugal.