Publicado em 26 de junho de 2007   |   Fonte: Izaura Gabriella

Desabafo de uma agente prisional

“Segurança Pública – foram investidos 104.543.458,31 na Segurança Pública do Estado de Mato Grosso”. “Foram compradas 981 viaturas para o Sistema Prisional do Estado do Mato Grosso”. “A Polícia Comunitária funciona no Estado de Mato Grosso”.

Tudo isso é muito bonito, muito cor de rosa, mas eu me lembrei de cada uma dessas manchetes no dia 14 de junho de 2007, quando às 2h40 da manhã teve início a fuga, a maior fuga da história de Mato Grosso, do local onde trabalho.

Queria saber onde foi parar todo esse dinheiro acima citado e anunciado pela imprensa. Ninguém sabe, mas com certeza em Rondonópolis não foi.

Compraram 981 viaturas para o Sistema Prisional, também não chegou em Rondonópolis, não na Mata Grande.

A polícia comunitária foi desativada em outubro de 2006, então ou a imprensa ainda não sabe disso ou quem deu a reportagem esqueceu de relatar o fato.

Há sete anos, o Siagespoc (Sindicatos dos Policiais Civis e Agentes Prisionais), está solicitando melhoria de trabalho, aumento salarial, capacitação profissional para todos os servidores do sistema prisional e outras coisitas mais. Mas isso não é importante para o Estado. Até agora, o governo do estado só tem feito paliativos, o real mesmo, o que realmente se faz necessário e urgente nada tem sido feito.

A resposta que sempre recebemos é: não há verba suficiente para a reforma da unidade; não há dinheiro suficiente para a capacitação dos profissionais; não há dinheiro suficiente para dar aumento de salário, hoje um agente prisional recebe R$ 860,00 por mês, sem hora extra, sem ajuda de custo, sem vale-transporte, sem auxílio periculosidade, etc, etc, etc.

Hoje, a Penitenciária Major Eldo de Sá Correia, se for vistoriada por um engenheiro que não seja do Sistema, solicitaria, no mínimo, uma reforma urgente e no máximo uma interdição da unidade. Quando chove, molha mais dentro do que fora da unidade; Telefone? Isso não existe, isso é um mero fantasma no Sistema, pode ligar para ver se funciona.

Fax? Isso é outro fantasma, se não existe telefone, imagine fax, rádio amador, rádio HT, lanterna, pilhas, colete à prova de balas, botas, capas de chuva, capacitação profissional, aumento de salário, progressão de cargo, isso não existe, é um velho sonho de quem imaginou ser agente prisional e que o sistema de segurança do estado fosse prioridade do governo, não é.

Como existe uma velha frase – “casa de ferreiro espeto de pau” -, é assim nosso Sistema Judiciário do Estado do Mato Grosso.

E as viaturas – há as viaturas não têm giroflex, não têm buzina, não têm sirene, não têm manivela para subir ou descer os vidros. Esses dias, tivemos que improvisar e colocar uma algema no carburador para ele não se arrastar – “teje preso” - já viu prender carburador?!

Quanto aos buracos no chão – subsolo da Mata Grande – a SEJUSP sabia, sempre soube; há sete anos que sabe. O secretário anterior já tinha consciência do fato, e o novo secretário de estado da SEJUSP também; nos prometeu vir até Rondonópolis para ver o problema de perto, até ontem ele ainda não tinha vindo.

É muito fácil arrumar um Cristo, um bode expiatório, ou vários deles ao mesmo tempo. Difícil é a SEJUSP assumir que errou. Que já sabia dos fatos. Que há sete anos estamos solicitando uma reforma. Que há sete anos estamos segurando o problema. Que há dois anos estamos sem rebelião, sem fugas. Que há dois anos todos os motins foram derrubados, porque nós agente prisionais, agentes administrativos, a direção do presídio, e Polícia Militar, estamos trabalhando em equipe. Não precisa ir muito longe, é só olhar pelas ‘revistas’ mostradas na mídia. Estamos fazendo nosso trabalho. Mas isso não é mostrado. Antes nos vêem como escoria da sociedade, como corruptos e outras coisas mais, que me nego a dizer.

Também somos pessoas de bem. Também temos família. Também temos filhos, maridos, esposas. Também fazemos parte da sociedade de Rondonópolis e também votamos. Somos cidadãos comuns, que saem de manhã para o seu trabalho, para sustentar a si próprio e sua família.

Mas isto não é visto nem comentado.

Não estou me abstendo dos fatos, mas estou lhes dizendo que a SEJUSP tinha noção, ciência do problema e não fez nada porque não tinha estrutura ou por irresponsabilidade própria de alguns, ou por incompetência do atual secretário – porque informado foi.

Se alguém tem que cair, é o chefe maior; se alguém tem que ser penalizado é o Carlos Brito ou o próprio governo. Se não informaram ao governador não é culpa nossa, os relatórios são mandados todas as semanas para Cuiabá.

Se não fizerem nada, tenho uma notícia triste para dar: teremos mais fugas, mais rebeliões, mais motins. Porque o Presídio Major Eldo de Sá Correia está impossibilitado de trabalhar eficientemente desde a última rebelião.

Quero dizer mais, quem trabalha na Mata Grande, hoje, é herói. Trabalhamos por que temos hombridade de querer fazer o nosso serviço com responsabilidade, e acho injusto, cruel, colocar a responsabilidade de outros em nós, agentes prisionais, direção e policiais militares.

Enfim, para encerrar, convido os Direitos Humanos para fazer uma análise técnica do Sistema e da Instituição Major Eldo de Sá Correia. Convido os deputados federais, estaduais, senadores, o governador Blairo Maggi para ver de perto o problema. Com certeza, irão se assustar com o que irão ver.

(*) Izaura Gabriella N. R. de Souza, agente prisional – Grad. Administração em Segurança Pública/ Presidiária.

9 comentários

  1. Orlando Sabka disse:

    Parabéns Izaura Gabriella pela coragem e transparência em seu artigo que, em público, relata o outro lado da “moeda”, da omissão dos responsáveis e suas conseqüências. Normalmente aqui no Brasil a corda somente arrebenta no lado mais fraco, mas justiça seja feita, doa a quem doer. O maior problema é a impunidade. Caso houvesse punição exemplar em nosso país, a corrupção e a injustiça estariam praticamente extintas. O caminho é denunciar, pois quem cala consente. A sociedade exige respostas, urgentemente.

  2. Taís Messa disse:

    Parabéns pela sua iniciativa em publicar tais explicações à sociedade, pois nem todos conhecem a verdadeira realidade do sistema público…

  3. Priscilla disse:

    Izaura!!!!

    Parabéns não apenas pela sua coragem… Mas você demonstrou uma coisa que poucos conseguem… Companheirismo… E foi muito verdadeira ao divulgar a nossa atual situação!!!

  4. Marcos Santana disse:

    Parabéns pelo seu comentário, você não se omitiu em nada, quem trabalha no sistema prisional de Mato Grosso é um verdadeiro herói e, sempre que acontece um fato, ficam procurando bodes espiatórios para lhes atribuir a culpa, que é dos administradores do sistema. Precisamos de pessoas de coragem como você para mudar essa dura realidade.

  5. Isabel disse:

    Tudo que você disse a população imagina que sempre existiu, o que não dá para entender é o motivo que levou os agentes prisionais não avisarem que estavam fugindo aquele tanto de preso, não tem justificativa depois de sair um, dois, dez presos, vocês não pararem a fuga ou pedirem ajuda, pois mesmo sem telefone, pelo tanto de gente que saiu, dava para ir em Jaciara pedir ajuda, se não tivesse em Rondonópolis. Justifiquem isso.

  6. Roberto disse:

    É, chegou a hora. Parabéns a você colega. Alguém teria que expor à sociedade sobre as condições precárias deste sistema prisional ineficiente. É importante frisar que as informações que chegam à sociedade não são precisas, porquanto, infelizmente, em Rondonópolis, temos muitos que se dizem ser da imprensa mas não são mais do que falsos idealizadores e demagogos, proporcionando simplesmente à população rondonopolitana uma sensação de conivência dos servidores, isto sem ao menos ter informações dos fatos.

  7. Hélio disse:

    Parabéns Izaura, talvez sua atitude lhe custe alguma promoção, já que as autoridades gostam de ouvir palavras agradáveis. Mesmo porque não entendem da área, são conhecidos de algum político, não sabemos de onde vêm, nem para onde vão. Ciganos das pastas. Alheios à realidade do sistema, seu maior interesse é a comissão do cargo. Acredito que pessoas com conhecimento de causa como você, deveriam ser colocadas lá, fariam algo para realmente melhorar o sistema, antes que o Mato Grosso se torne uma sucursal da favela do alemão.

  8. Gracykelly Oliveira disse:

    Apesar da autora do artigo não ter respondido à Sra. Isabel, como agente prisional sinto-me no direito de responder e tenho confiança de que a colega que escreveu “Desabafo de uma agente prisional” não se importará com tal atitude. Sra. Isabel, sabe a distância que fica a Mata Grande de Rondonópolis? 10km. Conhece as condições em que se encontram a rodovia MT 130 que leva à Mata Grande? Já viu como é a iluminação da Rodovia e da entrada de acesso à Penitenciária? A sra. sabia que os agentes naquele momento contavam com 3 lanternas, cuja iluminação era de curto alcance e que não havia pilhas para todas as lanternas? A sra. sabia que o agente prisional tem como única segurança de trabalho sua capacidade mental? Enfrentaria, a Sra., 58 presos disposto a tudo, sozinha ou com um grupo de 10 a 12 agentes desarmados e no escuro???? Penso que deve ter lido sobre a situação da viatura - escapamento preso com algema para não arrastar pelo chão. Ainda assim, o agente, como sugere a senhora, poderia ter ido andando à cidade pedir ajuda, ficando a mercê dos fugitivos, que claro, como sugere seu comentário, não fariam nada com um agente desarmado que estivesse tentando lhe impedir a fuga. A polícia militar que fica na Penitenciária não fica com viatura naquele local e os meios de comunicação, como exposto no artigo são precários, para não dizer inexistente. Os policiais e agentes que trabalharam naquele dia com certeza pediram ajuda via rádio, mas nenhum sabe se teletransportar de um local a outro, o fator tempo, a distância a ser percorrida da cidade à Mata Grande é longa, pense nisso. Eu poderia dizer-lhe inúmeras outras coisas, mas simplesmente convido vossa senhoria para passar um plantão dentro da Penitenciária, vamos lá, a sra, bem como todo cidadão tem o direito de solicitar do Juiz dessa comarca permissão para conhecer a situação, as condições de trabalho desse local. Esperamos que todos que pensam como a sra. ou semelhantemente aceitem esse convite, estamos aguardando vocês.
    Obrigada por participar sua opinião foi de grande valia.

  9. Izaura Gabriella disse:

    É isso aí meus amigos, espero que isso faça o governo refletir sobre o que está realmente fazendo com o sistema judiciário do Estado.
    Obrigado para quem me entendeu, para quem me defendeu e para quem me criticou. Isso é a democracia e como tal, todos têm direito de pensar diferente.


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